quinta-feira, 7 de junho de 2018

Dolores Duran

(Rio de Janeiro, 7 de junho de 1930)


Uma mulher à frente de seu tempo, essa é a imagem que se tem de Dolores Duran morta aos 29 anos. Em plenos anos 1950, Dolores entrou para o hall de parceiras de Tom Jobim, namorou quem quis, falava abertamente de uma cirurgia plástica que fez. Bancar tudo isso não foi fácil. Com hábitos boêmios demais para uma pessoa com histórico de problemas cardíacos, Dolores acabou sucumbindo, após um infarto, em seu apartamento, em Ipanema, no Rio. Tudo teve seu preço em uma vida curta e atribulada. Dolores Duran foi, com certeza, uma das maiores representantes do samba-canção brasileiro. Um mulher que existia por trás das letras. Autodidata, dominou o inglês, francês, italiano e espanhol ouvindo músicas, a ponto de Ella Fitzgerald lhe dizer que foi em sua voz a melhor interpretação que ela já havia ouvido de My Funny Valentine - um clássico da música norte-americana.

Aos 16 anos adotou o nome artístico Dolores Duran e foi crooner de boates cariocas. Nos anos 50, Copacabana era o centro da vida da então capital federal e o samba-canção era a moldura do Rio de Janeiro. Eram em salas pouco iluminadas e enfumaçadas, que pares enamorados se encontravam envoltos na atmosfera da música de piano ou de um cantar sussurrado, que evocavam o amor magoado e a dor-de-cotovelo. Restaurantes e boates atraíam artistas do rádio e do teatro, a alta sociedade, os cronistas da imprensa, a turma da música popular, políticos e visitantes em férias. As madrugadas eram intermináveis; tudo era música, bebida, papo livre, ensaios, promessas, talentos circulando a procura de um apoio. A música brasileira era a atração principal nas boates, nos pontos de encontros informais da boemia.

Para Dolores Duran a noite começava no Cangaceiro, onde, quando estava feliz, bebia um coquetel de frutas, mas quando sentia que a solidão iria acabar com ela, tomava uísque puro, batia um papo e depois ia cantar no Little Club, outra boate da área, do mesmo dono do Cangaceiro. No final da noite, antes de começar outro circuito, tomava duas cafiaspirinas, uma colher-de-açúcar em um cálice e meio de água. Cantava até tarde nas boates, como artista e boemia, Dolores se movia com destreza nesse espaço que conhecia como ninguém e suas canções captavam muito desta atmosfera enfumaçada e do samba-canção.

A música de Dolores Duran ficou na memória desse território como representação dos anos dourados de Copacabana. Com rara sensibilidade, ela conseguiu flagrar o mistério sem esclarecê-lo, expressou de forma melódica o que todos sentiam: a paixão, tudo envolto no negro das roupas, dito ou cantado em sussurros, tendo em frente um copo de uísque e celebrando a culpa, o fracasso, os amores impossíveis e a solidão. No campo da autoria, Dolores Duran, juntamente com Maysa, foi destaque da década de 50. Pode-se dizer que a partir delas ocorre uma mudança significativa no cenário musical, inicialmente com a própria abertura de espaço para as compositoras, e também por terem imprimido linguagem poética à dor de amor, tema central da suas composições, falando dos sentimentos e ressentimentos femininos. Era um momento de virada em que já se ouviam os primeiros acordes da bossa-nova.

Suas composições não são homogêneas, pois muitas surgiram num final de noite, numa mesa de boate, escritas com lápis de sobrancelha em um guardanapo ou maço de cigarros. Considerada a rainha do samba-canção, Dolores também é apontada como uma precursora da bossa nova, por seu estilo especial de cantar. Seu público mais fiel foi os amantes da noite, em particular intelectuais e cronistas, muitos dos quais eram seus amigos e admiradores. Dolores Duran foi a cronista que descreveu as experiências com marcas existencialistas das noites passadas nos bares e boates de Copacabana nos anos 1950. 
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Do filme biográfico 'Por toda a minha Vida' com a atriz Nanda Costa, dublando a voz maravilhosa de Dolores Duran, com certeza uma das maiores representantes do samba-canção brasileiro. 

Dolores Duran - Fim de caso / Por causa de você / Solidão / Noite de paz

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