sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Wilson Simonal

(Rio de Janeiro, 23 de fevereiro de 1938)


Ele foi o maior cantor de seu tempo. Rivalizava com Roberto Carlos em número de discos vendidos e de fãs, mas o deixava no chinelo num aspecto: a voz. Um gigante, como foi Elis Regina entre as mulheres. Chegou aonde nenhum outro negro de sua época havia chegado. Estava ali, lado a lado com Pelé. Em 1970 foi convidado para acompanhar a delegação para a Copa do Mundo no México. Para depois se envolver num dos episódios mais obscuros da música popular brasileira tornando sua carreira errática e lançá-lo ao ostracismo. Foi acusado de contribuir para a prisão do seu contador a quem acusava de desfalque, e contribuir para sua prisão e para os maus tratos a que foi submetido no cárcere por torturadores do DOPS. No julgamento foi declarado que Simonal era informante do órgão repressor. Simonal foi condenado e pode cumprir em liberdade, mas foi condenado pela opinião pública e a imprensa.

Filho de uma empregada doméstica, Simonal era cabo do Exército quando começou a cantar no Leblon, onde estava sediado. Foi crooner de um grupo de calipso. Apresentou-se no programa 'Os brotos comandam' do Carlos Imperial, um dos grandes responsáveis por seu início de carreira. Cantou nas casas noturnas e foi levado por Miéle e Bôscoli para o Beco das Garrafas, que era o reduto da bossa nova. De acordo com o jornalista Ruy Castro, "quando surgiu o cantor no Beco das Garrafas, Simonal era o máximo para seu tempo: grande voz, um senso de divisão igual aos dos melhores cantores americanos e uma capacidade de fazer gato e sapato do ritmo, sem se afastar da melodia ou apelar para os scats fáceis". Para Miéle, Simonal foi o primeiro showman brasileiro. Voz ímpar, domínio de palco perfeito. Após ter várias músicas nas paradas de sucesso a TV Record o chamou para apresentar o programa 'Show em Si..Monal'. Pela primeira vez na história do país, um negro apresentava um programa de televisão sozinho, era um marco na história da televisão brasileira. O sucesso era imenso até ser acusado. 

Esquecido pela mídia, pelo público, Simonal entrou em depressão e sofreu com o alcoolismo. Certos que se cometia uma justiça com a história de Wilson Simonal, em 2002, seus familiares pediram a Comissão Nacional de Direitos Humanos da OAB que fizessem uma investigação sobre a veracidade das acusações. E foi autorizada uma pesquisa nos arquivos nacionais onde não foi achado nenhum registro de que Simonal tivesse sido colaborador, servidor ou prestador de serviços daquelas organizações.

Este disco teve seu título inspirado na canção homônima de Caetano Veloso, que ganhou o quarto lugar no Terceiro Festival de Música Popular Brasileira em 1967, e marca a consolidação do estilo musical de Wilson, denominado por ele mesmo de 'pilantragem', uma mistura de samba, jazz, rock e soul, com temperos latinos. O som de Simonal veio como uma alternativa ao ie-ie-iê dos anos 1960, que buscava incorporar elementos do emergente rock 'n roll à música brasileira, e à MPB tradicional, que rejeitava inteiramente os novos ritmos internacionais que invadiam o país naquela época.

Do álbum 'Alegria Alegria vol.1' (1967)

César Camargo Mariano - piano
Sabá - baixo
Toninho Pinheiro - bateria

Wilson Simonal - Nem Vem Que Não Tem

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